Dieta Paleo

Dieta Paleo: o que nos diz a ciência?

A dieta Paleo, que na sua essência consiste na adoção de um padrão alimentar semelhante ao do Homem da Era Paleolítica, encerra em si do ponto de vista conceptual a maior plausibilidade biológica no que diz respeito à nutrição humana.

Apesar de variáveis de acordo com a área geográfica e clima, os alimentos disponíveis no Paleolítico eram: animais selvagens, ovos, plantas e algas marinhas, raízes, tubérculos, bagas e frutos silvestres, frutos secos e sementes e ocasionalmente o mel. O que não existia, e portanto não poderia ter feito parte da nossa dieta são os laticínios (exceto leite humano materno durante a amamentação), cereais (consumo raro, apenas no Paleolítico superior), leguminosas, açúcar isolado, óleos isolados, álcool, e sal refinado.1

Depois de 2,6 milhões de anos de evolução como caçador – recolector, com o advento da Agricultura, o Homem transitou para um estilo de vida radicalmente diferente, particularmente no que diz respeito à dieta. De entre essas profundas alterações dietéticas que têm apenas 10.000 anos (o que corresponde a cerca de 0,5% da nossa existência), a selecção dos cereais como principal fonte de calorias da dieta, alimentos praticamente inexistentes no Paleolítico, foi das que teve maior impacto na saúde do Ser Humano.2,3

Ao contrário do que se possa pensar, vários registos comprovam que após o advento da agricultura diversos índices de saúde se foram deteriorando.4

O cultivo de cereais, em particular do trigo, garantiu muito mais comida por unidade de território permitindo ao Homem multiplicar-se exponencialmente, mas não com mais saúde.

Os estudos fósseis sobre a saúde humana logo após o advento da agricultura mostram:5
1. aumento da mortalidade infantil,
2. diminuição da densidade mineral óssea,
3. problemas dentários,
4. anemia por carência de ferro,
5. lesões ósseas compatíveis com doenças infecciosas,
6. diminuição da esperança média de vida.

A própria ideia generalizada de que no Paleolítico a esperança média de vida era curta não é correta. Pelo contrário, estima-se que rondaria os 68-78 anos, e que os indivíduos com idades acima dos 60 anos não apresentavam sinais das doenças que hoje afetam a maioria dos idosos nos países industrializados. Um fator que introduz um viés nas estimativas da esperança média de vida são os eventos fatais (p.e. acidentes, infeções, entre outros) e a mortalidade infantil. Se hoje temos uma maior esperança média de vida, esta não se deve a uma dieta ou estilo de vida mais saudáveis, mas sim a melhores cuidados de higiene, vacinação, antibióticos, melhores cuidados de saúde, entre outros.6

Em diversos registos históricos verificamos que as populações com um estilo de vida ancestral (caçador-recolector) são invariavelmente descritas como saudáveis, magras/em forma, e livres de doenças crónicas degenerativas. Estas observações são confirmadas pelos registos médicos e antropológicos que reportam uma baixa incidência de doenças crónicas degenerativas como o síndrome metabólico, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, cancro, acne, bem como miopia, nos povos que conservam atualmente um estilo de vida paleolítico comparativamente com as populações ocidentais.7

Se em termos evolutivos 10 mil anos é muito pouco tempo, e claramente insuficiente para que o Ser Humano se tenha adaptado à mudança radical introduzida pela agricultura, o que dizer da revolução industrial que tem pouco mais que 200 anos?!!

A revolução industrial trouxe o processamento e refinamento dos alimentos bem como o acesso generalizado a produtos como cereais e açúcar refinados, óleos vegetais processados e gorduras trans, entre outros. Desde então iniciou-se um declínio vertiginoso na saúde humana. Doenças que eram praticamente desconhecidas tornaram-se no último século verdadeiras epidemias, e hoje em dia a obesidade, a diabetes tipo 2 e as doenças cardiovasculares estão de entre as principais causas de morte a nível mundial.8

Como já foi explicado num artigo anterior, hoje sabemos que maioria das doenças da civilização moderna têm um denominador comum, a inflamação crónica e desiquilíbrios hormonais. Destes, o mais relevante é a elevação crónica da insulina no sangue (hiperinsulinemia) e o desenvolvimento de resistência à insulina (insulino-resistência).9

Os estudos epidemiológicos demonstram que nas últimas décadas não houve um aumento significativo na ingestão per capita de calorias.10,11,12 Estes dados colocam de parte a ideia de que a obesidade e as doenças metabólicas associadas decorrem em primeira instância de uma maior ingestão calórica. E se é verdade que estamos mais sedentários, os estudos que analisaram o impacto do exercício na perda de peso verificaram que ele é mínimo ou inexistente. 13,14,15,16,17

Não foi o número de calorias que mudou, mas sim a sua principal fonte: o açúcar e hidratos de carbono refinados.18,19,20 Estes são comprovadamente os principais estimulantes da insulina!21

Colocar os alimentos com maior teor de açúcares como é o caso dos cereais na base da nossa alimentação, e ainda por cima refiná-los, foi um ato desastroso para a nossa saúde.
Elevámos dramaticamente o índice e carga glicémicas (teor de açúcar) da nossa dieta, e acrescentámos-lhe vários elementos pro-inflamatórios. Esta é a essência da dieta moderna. Tudo isto é evitado numa dieta Paleo.

Após 40 anos de recomendações nutricionais22 que preconizam que 50-70% da energia alimentar deve provir de hidratos de carbono, seguem-se alguns factos que nos deveriam fazer refletir:

DIABETES

A prevalência da diabetes no mundo praticamente duplicou (aumento de 46%) em apenas 10 anos (2000-2010). Portugal têm das mais elevadas prevalências de diabetes da Europa e do mundo (a 4ª mais elevada).23

OBESIDADE

Entre 1980 e 2013 a prevalência de excesso de peso/obesidade na população adulta mundial aumentou de 28,8% para 36.9% nos homens e de 29,8% para 38% nas mulheres.24 Atualmente, dois terços da população adulta portuguesa tem excesso de peso ou obesidade.25

SÍNDROME METABÓLICO

Um quarto da população mundial tem o síndrome metabólico (classificação da International Diabetes Federation). De acordo com alguns autores esta prevalência pode chegar aos 84% em determinadas áreas do globo.26A prevalência do síndrome metabólico na população portuguesa está entre 42-66%.27

INSULINO-RESISTÊNCIA

Trinta a 40% da população mundial tem insulino-resistência.28 Esta prevalência sobe para cerca de 70% quando está presente o síndrome metabólico.29

Atualmente já vários ensaios clínicos têm comprovado que a dieta Paleo se revela mais saudável que as próprias recomendações nutricionais vigentes, resultando numa melhoria mais significativa da globalidade das doenças que compõe o síndrome metabólico (obesidade, diabetes, gorduras no sangue, e hipertensão).30

Importa reter que de entre as várias vantagens da dieta Paleo a ingestão de alimentos não refinados, com maior aporte de fibra e consequente menor aporte de açúcares em geral é um fator fundamental para a melhoria da saúde, nomeadamente a perda de peso. Concomitantemente, a ingestão de boas fontes de proteína e gordura atua sinergicamente, contribuindo para uma saciedade e controlo do apetite mais eficazes e constantes ao longo do tempo.

Estes fatores têm fortemente contribuído para a fama generalizada da dieta Paleo: perde-se peso sem passar fome, com melhoria global do estado de saúde, sem contagem ou restrição voluntária de calorias, fazendo refeições saborosas e saciantes.

Por fim importa referir que a dieta Paleo deverá servir apenas como um modelo a partir do qual se deve adaptar a alimentação à individualidade genética, bioquímica e fisiológica de cada um.

Então, perante a pergunta: quem beneficiará da dieta Paleo?
Olhando para o estado de saúde da população mundial, nomeadamente em Portugal, a resposta será: provavelmente a maioria.


Pontos-chave:

– A dieta Paleo é um conceito que preconiza a alimentação com o qual o Homem evoluiu durante cerca de 99% da sua existência (Era Paleolítica), eliminando os alimentos introduzidos após a revolução Agrícola.

– A evidência científica mostra que após o advento da agricultura e particularmente após a revolução industrial a nossa saúde declinou e doenças que eram inexistentes tornaram-se nas epidemias que hoje são as principais causas de morte a nível Mundial.

– Sabemos hoje que estas doenças, ditas civilizacionais, têm como principal causa as profundas alterações que a dieta do Ser Humano sofreu, particularmente a introdução de cereais e açúcares refinados.

– Vários ensaios clínicos já comprovaram que a dieta Paleo se revela mais saudável que as próprias recomendações nutricionais vigentes, resultando numa melhoria mais significativa da globalidade das doenças que compõe o síndrome metabólico (obesidade, diabetes, gorduras no sangue, e hipertensão).